Crônicas de conteúdo histórico-cultural sobre artistas, personalidades, políticos e acontecimentos em Duque de Caxias, RJ, projeto concebido pelos jornalistas Alberto Marques e Josué Cardoso.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

BAIXADA CULTURAL

A NAU DOS INFELIZES

       TRAGÉDIA A BORDO DE UM NAVIO 
                 NEGREIRO BRASILEIRO

                                                                                                   
Senhor Deus dos desgraçados!
              Dizei-me vós, senhor Deus!
se é loucura... se é verdade 
tanto horror perante os céus?!
         Castro Alves em “Navio Negreiro”
           
Na manhã do dia 6 de setembro de 1842, uma belonave britânica de 26 canhões denominada  H.M.S .Cleópatra, adentrava a baia de Guanabara para uma escala de alguns dias destinados ao abastecimento. Sua missão nessa viagem era transportar o tenente-general sir William Gomm, que ia tomar posse como governador nas ilhas Maurício.
Ancorado próximo ao porto estava o barco “Malabar”, também de bandeira inglesa com 64 canhões, no qual fazia parte da tripulação o reverendo inglês Pascoe Grenfell Hill que por questões pessoais, pediu transferência para o “Cleópatra”.
Extasiado diante da imensidão da baia, o pastor registrou em seu diário: “A magnificência incomparável da baia do Rio, apertada na entrada, depois se abrindo em uma circunferência de dezessete léguas; suas cem ilhas; as montanhas que a envolvem mostrando cada mudança de contorno, coberta por uma riqueza de verdura do litoral até os cimos... misturando seus cumes com as nuvens; tudo isso compõe uma variedade e beleza que dificilmente cansa a vista. A cidade do lado esquerdo da entrada fica a quatro ou cinco milhas de distância da entrada”.
Ao desembarcar em frente ao Hotel Pharoux, comenta o grande movimento do cais, nos barcos que saíam ou chegavam levando e trazendo passageiros e víveres dos navios ancorados ao largo. Contemplou uma praça na qual observou uma grande profusão de frutas e verduras espalhadas pelo chão apregoadas por escravos.
 “Uma alegria cordial se misturam ao redor de um pequeno fogareiro de carvão onde eles fritam seus peixes ou cozinham sua raiz de mandioca e batata doce. O trabalho mais pesado que se vê na rua é o do carregador de café que leva sacos pesados na cabeça com seus passos acelerados, ao som de chaqualhantes substâncias dentro de uma bexiga que o chefe do grupo sacode e os outros acompanham cantando”.
Critica com veemência o Brasil por sua condição de país escravista, comentando que os casos de tortura e crueldade não eram divulgados pelos jornais do Rio de Janeiro, apenas anunciando casos de negros fugidos de uma jornada sobrecarregada de trabalho e subnutridos “dependendo dos caprichos do mau humor ou da avareza de seu dono”. Assistiu a um leilão de “mais ou menos vinte e cinco escravos de ambos os sexos, decentemente vestidos sentados em bancos atrás de uma mesa comprida, onde um de cada vez subia para ser melhor examinado pelos arrematadores. Um ar de obstinação parecia expressar seus sentimentos de degradação por estarem sendo postos à venda.”
No dia 14 de setembro daquele ano o “Cleópatra” levantou ferros singrando majestosamente em direção ao oceano Atlântico, buscando o continente africano. Ao iniciar essa viajem o pastor Hill não suspeitava que fosse testemunhar para a posteridade através de seu diário, talvez o mais contundente registro que temos conhecimento das condições degradantes de um navio brasileiro destinado ao transporte de escravos, após ser aprisionado pelos ingleses. Num tom seco e direto, o pastor narra a ventura desse barco “tumbeiro” denominado “Progresso”, que seguia para o Rio de Janeiro.    

                                                   O APRISIONAMENTO
Deixando as ilhas Maurício, o ‘Cleópatra” dirigiu-se à foz dos rios da região da costa de Moçambique, infestada de barcos negreiros. “Um novo interesse aqui se ligava a cada nau que fosse vista. O mercado de escravos na costa da África no presente momento, está quase confinado aos distritos de Quelimane e Sofala, tendo cessado no Porto, graças aos zelosos empenhos dos últimos e do presente governador”.
Ancorado fora da barra, no dia 23 de março de 1843 o comandante mandou uma barca subir o rio em direção a cidade de Quelimane, trazendo na volta uma carta do governador narrando que dois barcos brasileiros, o “Desengano” e o “Confidência”, foram capturados pelo brigue “H. M. Lily”, cuja tripulação composta de brasileiros e portugueses, apresentara-se a ele, tendo sido devolvidos aos seus respectivos países.
No dia 31, uma embarcação de dois mastros foi avistada ao longe “indo furtivamente ao longo da margem” tendo sido fracassada a tentativa do Cleópatra em contatá-la, alguns escaleres foram enviados “para vigiarem os pequenos rios ao longo da costa.”.
As obras de revitalização da área portuária do Rio revelaram o antigo cais do Valongo, onde desembarcavam os escravos vindos da Áfica.

Ao amanhecer do dia 12 de abril “ao voltarmos para Quelimare, o vigia no alto do mastro principal percebeu a sotavento uma embarcação que pela distância mal era visível; mas sua localização tendo sido considerada muito suspeita, a ordem foi de dirigir-se para ela”. Um vento forte seguido de chuva dificultava a perseguição à estranha embarcação. Após algum tempo o sol voltou a brilhar revelando próximo um “bergantim de linhas arrojadas como nós... desmastrado durante a ventania”. De repente o barco içou as velas pôs-se em fuga desfraldando a bandeira brasileira, em resposta a bandeira britânica que tremulada no mastro perseguidor. Posicionaram-se os homens da tripulação em torno aos canhões e ouviu-se o primeiro tiro de advertência em direção ao bergantim. Seguiu-se mais alguns outros, sendo ignorados pelo perseguido até que, perdendo distância, arriou as velas e aguardou aproximação de seu captor.
Um escaler conduziu um oficial para tomar posse do navio, e substituir a bandeira brasileira pela bandeira britânica, pois aparentemente não havia dúvidas quanto sua atividade de navio negreiro. Seguiu-se o capitão acompanhado do narrador deste diário e “um cirurgião para examinar o estado de saúde a bordo da presa”. 
A visão do quadro degradante que o pastor viu, mesmo em sua narrativa fria é horripilante. Negros nus e famintos se atropelavam no convés do navio arrebentando barricas de farinha, “a raiz da mandioca em pó; outros tendo quebrado os caixotes seguravam grandes pedaços de carne de porco e de boi; e alguns pegaram aves das gaiolas e as devoravam cruas”. Panos torcidos eram enfiados nos tonéis de aguardente, “um forte rum brasileiro do qual beberam em excesso”. Os gritos ensurdecedores de alegria foram ouvidos depois que toda a tripulação inglesa subiu a bordo para livrá-los das correntes de ferro, as quais muitos deles ainda estavam presos.
Após a tripulação de dezessete homens ser transferida para o barco inglês composto de três espanhóis e o restante de portugueses e brasileiros, foi avaliado a situação: tratava-se do navio brasileiro “Progresso”, deslocando cerca de 140 toneladas procedente de Paranaguá e seguia em direção ao Rio de Janeiro. Sua carga era composta de 447 negros. “Desses 189 eram homens, poucos, no entanto, passando dos vinte anos; 45 mulheres e 213 meninos”. Havia um grande número de doentes a bordo, suspeitando-se que a princípio fosse de 25, mais tarde descobriu-se uma quantidade maior.
Segundo a tripulação o comandante havia perecido afogado no porto de embarque. Tempos depois se descobriu que ele permaneceu escondido entre seus subordinados para fugir ao rigor das leis inglesas. Dois espanhóis e um português voltaram para o barco “Progresso” com a tarefa de cozinharem para os negros, juntamente com nove marinheiros, um tenente, um mestre quarteleiro, um contramestre e o pastor Hill, autor do diário do qual estamos seguindo seu roteiro.

                                     A VOLTA PARA A ÁFRICA
Ao longo do tombadilho o pastor descreve os negros recentemente libertados, dormindo, enquanto a nave desliza suavemente à brisa do mar calmo. Corpos esqueléticos, uns sobre os outros, disputam o pequeno espaço. De repente, “o céu começou a se encher de nuvens e um nevoeiro espalhou-se pelo horizonte para barlavento”.
Os fortes ventos seguidos de chuva provocaram as cenas de horror que se seguiram, com os marinheiros querendo chegar até as cordas para recolher as velas, e a pisotearem os negros que se alvoroçaram aos gritos acompanhados da ordem de mandar todos descer para o porão. Durante a noite, o calor sufocante agitou “quatrocentos infelizes seres humanos apertados em um porão com doze jardas de comprimento... rapidamente começaram a fazer um esforço para voltar ao ar livre” através das escotilhas fechadas em cima deles.
“A única passagem de ar, o calor sufocante do porão, e, talvez o pânico da situação inusitada fez com eles pressionassem... se acumularam nas grades, e agarravam-se a ela lutando por ar. Mas com isso barravam completamente a sua entrada. Posso afirmar sem exagero que os gritos, o calor “a fumaça do tormento deles” que subia não pode ser comparadas a nada desse mundo. Um dos espanhóis avisou-se que a conseqüência disso seria de muitas mortes.
Pela manhã, cinqüenta e quatro corpos de homens, mulheres e crianças foram conduzidos para o tombadilho e jogados ao mar. “Era uma cena horrorosa vê-los passar um a um, os membros enrijecidos cobertos de sangue e de sujeira” Outros estavam feridos ou fracos demais para se erguer. Haviam sidos pisoteados. “Alguns ainda tremendo foram deitados no tombadilho para morrer, água salgada eram jogada sobre eles para revivê-los, e um pouco de água entornada em suas bocas”.
A refeição daquele dia consistia de farinha e água, “quase metade de meio litro que eles agarravam com inconcebível avidez... suas gargantas deviam estar ressecadas pelos choros e gritos que vararam a noite adentro”.    
Na véspera de Páscoa, o pastor parece desabafar diante de tanta degradação: “O mundo não consegue apresentar um espetáculo mais chocante da desgraça humana do que esse nosso navio apresenta. Parece que uma cena tão angustiante possa ser testemunhada sem causar um efeito prejudicial no espectador”. Depois familiarizando-se, ele vai em certo grau insensibilizando seus sentimentos.
Dia de Páscoa, domingo, 16 de abril. Avistou-se o “Cleópatra” com sinais de que queria se comunicar, sendo feito a aproximação. Receberam “um velho português chamado Valerian, para ajudar a reparar nossas velas que eram velhas e fracas”, e um cirurgião assistente “que começou a examinar os doentes. A maioria dos casos era de disenteria e de ferimentos ulcerados. Um homem tinha uma profunda escara infeccionada causadas por chicotadas. Uma pobre criança de seis ou sete anos perdeu quase todo o dedo grande do pé comido por “niguas”, ou seja, bicho de pé”.

Na manhã de segunda feira, os meninos que anteriormente haviam sidos rejeitados à bordo do “Cleópatra” por suspeitas de varíola, finalmente foram aceitos cerca de cinqüenta, pois se tratava de “violenta espécie de coceira”. Acompanhados de víveres para alimentá-los, consistindo de “dois sacos de arroz, um de milho moído, uma boa quantidade de carne-seca... que só desse último artigo o “Progresso” carregava um estoque suficiente para alimentar os negros durante dois meses”, além de seiscentos sacos de feijão miúdo, guardado abaixo do tombadilho dos escravos, arroz inferior, farinha, e “22 enormes tonéis, cada uma comportando cinco ou seis barricas cada”.
Referindo-se ao depósito de provisões o pastor registra: “armários trancados cheios de cerveja comum e de cerveja preta forte; barris de vinho; licores de várias espécies; macarrão; vermiceli; tapioca da melhor qualidade; caixas de picles ingleses, cada uma contendo doze vidros; caixas de charutos; uva moscatel; tâmaras, amêndoas, nozes etc.etc. Os viveiros no tombadilho estão cheios de aves e patos e tem onze porcos”.
O “Cleópatra” afastou-se rapidamente dando o último adeus de despedida. Durante a jornada o espanhol que fazia parte da tripulação anterior em atividade no navio brasileiro “Progresso”, revelou ao pastor dados interessantes de sua vil profissão. Narrou que durante os “dois ou três meses”, em que ficaram à espera do embarque da carga humana na praia, os negros ficaram muito doentes, “Alguns deles tinham vindos de longe no interior e chegaram em condições deploráveis e cinqüenta foram rejeitados como incapacitados para viajar”. Curiosa a resposta do tripulante quando perguntado se acreditava no fim do tráfego de escravos, que cada vez mais era combatido pelas nações que assinaram um pacto para esse fim, “ele achava que no Brasil, onde havia grandes enseadas isoladas que facilitavam o contrabando, haveria uma grande dificuldade em suprimir o tráfego, embora se a autoridade do governo simpatizasse com a causa poderia fazer muito”.
Rugendas retratou o mercado de escravos no centro do Rio

O “Progresso” havia sido o quarto navio apreendido naquele ano. “Em Quelimane, oito ou nove navios pegam sua carga anualmente” continua o espanhol “e, calculando por baixo, com quinhentos escravos em cada um... agora nenhum escapa, é um trabalho para homens desesperados... Na costa leste os negros geralmente são pagos em dinheiro, às vezes em “fazendas”, algodão grosseiro a um custo mais ou menos de dezoito dólares por homem e doze por meninos. No Rio de Janeiro, seu valor estimativo é de 500 mil réis por homens, 400 mil réis por mulheres e 400 mil réis por meninos. Assim sendo uma carga de quinhentos escravos, a um preço vil, o lucro vai passar de 19.000 libras”.
Uma manhã um negro morreu e foi jogado ao mar. Seu corpo flutuou em torno do navio batendo contra o casco “de barriga para cima durante meia hora”. A tripulação ficou temerosa que algum tubarão pudesse alcançá-lo. Finalmente o cadáver se afastou para todo o sempre. O maior sofrimento dos negros era a sede. Com a água racionada eles sorviam as gotas de chuva que pingavam das velas. “Colam seus lábios nos mastros molhados e engatinham até as gaiolas das aves para compartilhar os alimentos”. Na hora da refeição, constando de feijão cozido com arroz, a comida era distribuída em tinas “ao redor das quais eles estão sentados em grupo de dez, e, a um sinal, começam a mergulhar suas mãos na mistura e com grande habilidade levam o conteúdo até suas bocas”.                                     
.Um tubarão de grande tamanho foi pescado pela guarnição e serviu de refeição para os negros que se arregalaram com alegria durante a refeição. Porém, antes de abrir o peixe, ficaram temerosos “de encontrar restos dos nossos camaradas falecidos”.
Uma febre estranha atacou seis homens da guarnição, inclusive o pastor. Manoel, o cozinheiro português, foi o primeiro acamar-se com delírios. “Nessas febres da costa da África é necessário não ficar acovardado; por que se alguém se acovarda, em quatro dias morre”. E foi o que aconteceu com Manoel. “O corpo foi costurado dentro de um saco, com um chumbo para fazê-lo afundar, depois foi trazido para a popa, onde os ingleses e os espanhóis esperavam, eu li o modelo de Serviço Fúnebre para ser usado no mar: “Entrego seu corpo com honras no mar, esperando pela sua ressurreição, quando o mar deverá entregar seus mortos e a vida do mundo ocorrer”.
No final de abril durante uma noite, todos acordaram com gritos ouvidos no convés dos escravos. Ao verificar o motivo, denunciaram: “estão roubando água”. Confirmada a denúncia, foram responsabilizados sete elementos como autores do furto. “O mal resultante dessa delinqüência não é só da água retirada e sim a sujeira que fica dos trapos que eles mergulham nos barris para tirar o líquido”. Pela manhã os acusados foram amarrados no convés “e cada um recebeu de quinze a vinte chibatadas: um espanhol, um inglês e um negro forte se revezavam na tarefa”.
Após vários dias de calmaria o “Progresso” velejava sereno, acompanhado de cardumes de toninhas com os marinheiros tentando arpoá-las. Em poucos momentos o céu encheu-se de  nuvens carregadas com os relâmpagos rasgando o horizonte, sinalizando o recolhimento das velas. Trovões rolaram acompanhando o vento e as ondas que varriam o convés. Os gritos dos negros recolhidos apressadamente ao porão, o ranger de cordas e do tabuado faziam crer que o navio estava prestes a se partir.
Ao se iniciar o mês de maio, o navio seguia sua rota em calmaria entrando num novo hemisfério. A estação fria se aproximava mantendo os negros aninhados no porão. “Os negros nus já estavam começando a tremer e a bater os dentes”, que aumentava a medida que o navio avançava para o norte. As noites eram geladas e em uma manhã “sete negros foram encontrados mortos e entre eles uma menina”. A morte estendia suas asas com mais calamidade sobre esses infelizes.
Em seu diário o pastor registra as cicatrizes de letras marcadas no peito e nos ombros dos negros, que segundo um português da guarnição, é para marcar as iniciais de seus respectivos donos. “Quando o navio chega ao Rio eles podem reconhecer suas propriedades” acrescentando que “a condição do negro é muito pior no Rio onde eles andam esfarrapados e maltratados “como um escravo” do que em Havana, onde às vezes está mais bem vestido do que muito branco”.
Nova tempestade colheu o “Progresso” com “vento violento acompanhado de chuva” ceifando mais vidas de negros recolhidos ao porão. Pela manhã: “três mortos foram as primeiras coisa que meus olhos viram no convés; um homem coberto por um cabo de corda, uma coisa horrível e repugnante; o pobre menino que sofria com bicho-de-pé e que agüentou seu sofrimento com muita paciência e uma menina, cujos dois olhos ontem estavam completamente fechados por causa de uma inflamação na cabeça. Suas vidas foram durante um tempo, uma carga pesada para eles e não poderiam se mais prolongadas, mas com certeza foram encurtadas pela inclemência do tempo”.                                
As tempestades se sucediam com freqüência. Ao entrarem nas zonas de turbulências com nuvens ameaçadoras, antecipava-se o recolhimento das velas e os negros eram recolhidos ao porão. “Rajadas se sucediam umas às outras misturando mar e ar em um lençol pulverizador, cegando os olhos do timoneiro. Ondas subindo altas, acima de nós, jogando para o céu as espumas de suas cristas e ameaçando engolir o navio a qualquer momento”. Cavalgando sobre as vagas e rangendo o madeirame, o velho brigue transportava em seu interior “os gritos agudos dos doentes através da escuridão da noite, subindo acima do barulho dos ventos e das ondas, pareciam as coisa mais tristes de todos os horrores desse infeliz navio”. 

Ao amanhecer a mesma rotina trágica: três corpos jaziam no convés para serem lançados no mar: “o de um homem e os de dois meninos, trazidos do porão para o convés”. O homem havia sido surrado por seus companheiros alguns dias antes, e naturalmente não agüentou a falta de ar no porão na noite anterior. Dentre as doenças dos negros que se manifestavam à bordo, “os casos de feridas ulceradas assumiam uma aparência tão horrível que eu agora mal consigo olhar. Esses pobres pacientes, também estão sem exceção, atacados de disenteria, da qual eles têm certeza que vão morrer mesmo se curados das feridas”. O estado de desnutrição era cada vez era evidente na aparência dos negros transportados pelo “Progresso”. “Um menino que estava a um estado que não se consegue conceber em um ser humano”, durante a administração de um remédio composto  de camomila, “Antonio o fez sentar para beber, quando sua cabeça caiu para frente e morreu nessa posição”.
Navegando numa região de calmaria, um horrível mau cheiro passou a exalar do porão impregnando todo o navio. A mistura das fezes e do suor dos negros doentes e esqueléticos que não podiam se locomover para o convés e permaneciam asfixiados num calor sufocante, faziam com que a tripulação se sentisse incomodada, “e na nossa cabine na popa é quase intolerável”.    
“Aparentemente nada se movia nem no ar nem no mar nem no céu, exceto os enormes albatrozes, com suas azas de dezesseis pés bem abertas, dando volta uma atrás da outra e, às vezes passando tão perto, que quase tocam a grinalda da popa na qual eu estava sentado”.
Ao entardecer sombras foram vistas no horizonte denunciando terras, confirmada ao amanhecer com o aparecimento dos pombos do Cabo, em conjunto com os albatrozes e várias velas que surgiam ao longe, suspeitando que fosse a “baia Plettemberg, entre a baia de Algoa e o Cabo, alguns negros apontam interessados e curiosos para lá, mas um grande número deles senta-se junto no convés, com suas cabeças descansando nos joelhos aparentemente em uma apatia total para tudo ao redor”.
A morte ceifaria naquela manhã mais três meninos. Seus corpos estendidos no convés era parte da rotina diária, “embora, durante os últimos sete dias os casos fatais tenham atingido uma média de quatro por dia”.
No dia 1º. de junho, o “Progresso” se aproximava da costa quando foram transportados do porão mais oito corpos, “e agora não podemos mais nos aventurar a joga-los ao mar como antes, porque as ondas podem leva-los para alguma praia desabitada da baia na qual entramos ontem à noite”. Na baia de São Simão, o nevoeiro desfeito deixou ver dezenas de mastros e velas de barcos que se confundiam ancorados ao largo.
Aproximando-se do cais, o navio lançou ferros, sendo logo visitado pelo fiscal sanitário. Em seguida o superintendente do Hospital Naval, também foi a bordo conduzido pelo pastor, já que eram velhos conhecidos, visitou o porão destinado aos escravos. “Por mais que ele estivesse acostumado a cenas de sofrimento, ele foi incapaz de suportar a vista, superando tudo o que ele podia conceber de miséria humana. Uma menina pequena chorava amargamente, presa entre as tábuas e lutando para libertar seus membros enfraquecidos, até que lhe deram assistência”.
As escavações para as obras na área portuária revelou o antigo cais do Valongo, que recebia os escravos vindos da África

Desembarcando no cais e após um descanso, o reverendo dirigiu-se abordo do “Isis” para  cumprimentar um velho conhecido: sir John Marchal. De volta para a terra resolveu fazer a última visita ao “Progresso”, onde encontrou mais seis corpos empilhados no convés junto aos oito do dia anterior esperando para serem enterrados na praia. Os mais saudáveis já tinham sido embarcados em vagões para a cidade do Cabo. Cada um dos que era liberado, diz o pastor em seu diário: “recebia um casaco novo e quente, calças, e eram colocados agasalhados em confortáveis vagões abertos... passei pelos negros e não os encontrei mais conformados com a mudança da situação... Cada mulher tinha um cobertor branco novo, além de roupas... responderam aos seus nomes, mas mostraram poucos sinais de alegria na ocasião. Dúvida e medo predominavam e seus semblantes pareciam aqueles das vítimas condenadas”.
Durante a limpeza do navio foi encontrado um menino preso nas taboas do porão em adiantado estado de putrefação. “Parte de uma das mãos tinha sido devoradas e um olho completamente roídos pelos ratos... os doentes que desembarcaram ainda são numerosos”.         
Após cinqüenta dias da viajem de volta ao continente africano, chegava ao fim um dos mais dramáticos depoimentos de fatos abomináveis que envergonham as relações humanas. O “Progresso”, navio brasileiro apreendido pela bandeira britânica com sua carga infame de 397 negros destinados ao Rio de Janeiro, chegava ao porto próximo à cidade do Cabo com 223 sobreviventes, reduzidos em 175 homens, mulheres e crianças que pereceram em condições degradantes.

                                                               POSFÁCIO
   Percorrendo o Rio de Janeiro durante a primeira metade do século XIX, o viajante inglês GT. W. Freireyss registrou uma visita feita ao mercado do Valongo: “Basta entrar numa das espaçosas salas de um traficante na Capital, para ver uma porção de negros recém-chegados divertirem-se à moda do seu país, o que o traficante lhes permite por que sabe que a falta de movimento e a nostalgia lhes diminuem o infame lucro. Encontramos aí alguns centos de negros nus e rapados, diversos tantos na idade como no sexo, que formavam uma grande roda, batendo palmas com toda a força, acompanhadas com os pés e com um canto gritado e de três notas apenas”.
Após as primeiras visões desta degradação humana, Freireyss assinala que os navios chegavam com a quarta parte de sua carga doente, “enquanto outros que trazem consigo o gérmen da moléstia, sucumbem poucos dias depois da chegada”.

Muito já se escreveu sobre a história social do Brasil desde o processo colonial. O tráfico negreiro é um desses temas que enodoam seu relato, iniciando com o aprisionamento de uma população ordeira do interior do continente africano por tribos litorâneas e negociando seus irmãos com traficantes de nações européias. Famílias inteiras transformadas em escravos contribuíram durante mais de três séculos para o esplendor econômico dos impérios coloniais incluindo o britânico, que se travestiu de inquisidor do tráfego negreiro no século XIX por interesses econômicos.         
Escrevi esse relato resumindo o texto do livro: “Cinqüenta Dias a Bordo de um  Navio Negreiro”, transcrito do diário de bordo do reverendo Pascoe Grenfell Hill, garimpado no raríssimo acervo do bibliógrafo e acadêmico José Mindlin, traduzido por Marisa Murray e publicado recentemente pela  José Olímpio Editora, na coleção Baú de Histórias.

                                                                                                    Guilherme Peres

quinta-feira, setembro 29, 2011

BAIXADA CULTURAL

MARTA ROSSI – A MINEIRINHA
QUE DESCOBRIU DUQUE DE CAXIAS
Ouvida pela comissão de jornalistas e pesquisadores que participam do projeto “Tarde com História”, promovido pelo Instituto Histórico Câmara de Vereadores de Duque de Caxias, a professora aposentada e agora artista plástica Martha Rossi prestou um emocionado depoi
mento que fará parte dos arquivos do instituto, para posterior aproveitamento por pesquisadores da História de Duque de Caxias.
Marta Rossi nasceu, na verdade, em Niterói, de onde sua família se mudou para Ponte Nova, em Minas Gerais, quando ela estava com seis meses de nascida. Por isso, é conhecida entre os amigos como a mineirinha de Ponte Nova. Lá ela estudou desde as primeiras letras num colégio mantido por freiras, onde se formou professora aos l7 anos. Logo depois se casou e foi com o marido morar, primeiro, em Belo Horizonte, daí vindo para o Rio de Janeiro. Um tio dela tinha um sítio em Parada Angélica, onde ela conheceu uma professora, que apesar de não ser formalmente uma professora, mantinha uma escola rústica em sua casa. Martha Rossi se encantou com o empenho e a dedicação da professora e resolveu procurar o prefeito de Duque de Caxias, onde consegui o emprego pretendido. Era 1949 e o prefeito era Adolfo David. Ela foi trabalhar na Escola Municipal Gastão Reis, na Rua Petrópolis, bairro Corte Oito. Algum tempo depois, ela passou a trabalhar numa
escola que funcionava junto à Igreja Adventista, na Av. Duque de Caxias, no bairro Itatiaia. Ali ficou sabendo da existência da Escola Regional de Meriti, mais conhecida como “Mate com Angu”, que adotara o Método Montessori de ensino e foi a pioneira no antigo Estado do Rio a implantar o regime de horário integral e o fornecimento da merenda. Num dia inspirado, ela foi visitar a escola, onde conversou com a fundadora da instituição, a professora Armanda Álvaro Alberto, que a convidou para se juntar ao grupo que atendia a cerda de 200 alunos.
Em pouc
o tempo Martha Rossi se tornou uma peça fundamental na condução da “Regional”, fundada em 1921 como Escola Proletária de Meriti, que acaba de comemorar seus 90 anos de existência. Martha fala com entusiasmo do trabalho que realizou na “Regional de Meriti”, entre os quais a busca por parceiros para garantir a sopa que era servida aos alunos acompanhada por um copo de mate. De caderninho na mão, ela procurava os comerciantes do centro de Caxias em busca de doação, em especial, os mercadinhos, as quitandas e os açougues. Sempre cativante e espontânea, ela conseguia o compromisso da doação semanal de gêneros de primeira necessidade para a elaboração da sopa. Outro programa da “Regional” de grande sucesso era o concurso de “Janelas Floridas”, que visava orientar as mães dos alunos para a importância do cultivo das flores para enfeitar suas casas e, também, a limpeza dos quintais para a impedir a proliferação de animais que pudessem transmitir doenças, como ratos e morcegos. Numa época em que o termo ecologia ainda era desconhecido, a “Regional” já se preocupava em usar a educação como ferramenta importante para a preservação do meio ambiente. E para ajudar a educação, havia o Clube de Mães, que se reunia para ouvir palestras sobre os cuidados com a higiene pessoal e de suas residências, como forma de evitar doenças. E ainda aproveitava esses encontros para ensinar atividades comuns, como bordar, costurar e consertar roupas, experimentar receitas e descobrir a importância de usar os produtos da região, inclusive noções de como manter uma pequena horta no fundo de suas casas, que poderiam fornecer verduras fresquinhas a qualquer hora do dia.
Martha Rossi também não se esqueceu do papel importante de alguns colaboradores, como o professor José Montes, que montou uma marcenaria dentro da escola, onde ensinava como transformar um pedaço de maneira num utensílio, brinquedo ou te mesmo numa obra de arte, como era o caso das gravuras em relevo sobre madeira. Lembrou também do professor e artista plástico Barboza Lei (foto ao lado), que criou uma escol
inha de artes, que reunia os alunos da “Regional” para descobrirem, juntos, os segredos da paixão que sempre uniu pincéis, tintas e telas através dos Séculos. Outra iniciativa importante da “Regional” foi criar e manter ativa uma biblioteca, batizada de Euclides da Cunha, que, aos sábados, recebia dezenas de estudantes que lá iam buscar gratuitamente livros emprestados, que eram religiosamente devolvidos, ou realizar pesquisas, uma das principais ferramentas dos alunos da “Regional”. em busca de conhecimento, numa época em que não havia internet, muito menos rádio e televisão. Aliás, o primeiro e único projetor em oito milímetros, que exibia filmes educativos e comédias de um cinema ainda iniciante, foi uma doação do médico Edgar Roquete Pinto (1884-1954), fundador da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, atual Rádio MEC, a primeira emissora do Brasil, fato ocorrido em 1923. Naqueles tempos, para ser um ouvinte era preciso cadastrar-se junto à emissora, adquirindo um equipamento para ouvir a programação em casa
Como uma escola revolucionária, a “Regional” provocou natural resistências dos donos de escolas particulares e dos pequenos empresários da antiga Vila Meriti. Por conta disso, disseminou-se pela região o apelido pejorativo de “Mate com Angu”, que acabou se tornando uma marca registrada da escola, cujos alunos eram sempre os mais bem colocados nos concursos realizados em escolas do Rio de Janeiro para o ingresso no então Curso Ginasial, hoje absorvido pelo Ensino Fundamental.
Preocupada com a qualidade do aprendizado dos alunos, a professora Armanda Álvaro Alberto reuniu um grupo de ex-alunas do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, as primeiras professoras do ensino primário com cursos específicos para a Educação das crianças, encarregadas de avaliar as provas aplicadas pelas professoras da “Regional”. Além de uma deferência às novas professoras, esse processo mostrou-se uma formidável arma de propaganda da eficiência do Método Montessori, adotado pela “Regional”. mas recusados por outras instituições de ensino, que o consideravam muito perigoso do ponto de vista da política vigente no País. Por conta dessas e de outras “novidades”, Da. Armanda Álvaro Alberto acabou na cadeia, de onde enviava cartas aos seus alunos, sempre incentivando que eles se dedicassem aos estudos, se pretendiam um futuro melhor. Já na segunda década do Século XX, uma jovem nascida e criada no aristocrático bairro de Laranjeiras, que trocara a possibilidade de conseguir, pelo casamento, uma grande relevância na sociedade carioca, por implantar uma escola numa vila distante da civilização (o trem só chegou à Baixada em 1913), cujos habitantes andavam descalços, moravam em casas de pau-a-pique (taipa), criavam porcos e galinhas no fundo do quintal de suas casas, bebiam água de poço, eram vítimas da Malária e não sabiam ler ou escrever. A Escola Proletária de Meriti começou a funcionar embaixo das mangueiras que ocupavam um terreno próximo da estação ferroviário, que acabou sendo doado à “Regional” pelo médico e militante político Romeiro Jr., também perseguido por ser muito avançado em matéria de ideologia política, pois insistia em pesquisar ao invés de aceitar, como fato consumado, as idéias defendidas pela maioria dos políticos da época, numa República instaurada por um Monarquista menos de Meio Século antes da fundação da Escola Proletária de Meriti, a nossa “Mate com Angu, orgulho, até hoje, de alunos, ex-alunos e professores.
Armanda Álvaro Alberto aproveitava o círculo de amizades de seus pais para buscar ajuda para a “Regional”, acabou conhecendo um jovem arquiteto, que projetou a primeira sede da escola, em alvenaria (antes, as aulas eram embaixo das mangueiras). Esse jovem arquiteto acabou consagrado mundialmente ao ganhar o concurso para fazer o projeto da nova capital. Era um ainda desconhecido Lúcio Costa. Entre dezenas de personalidades que, ao longo do tempo, ajudaram a manter vivo o sonho de Armanda Álvaro Alberto, encontramos nomes como os do médico Roquette Pinto, do escritor e crítico literário Tristão de Ataíde (ou Alceu Amoroso Lima), do professor Edgar Sussekind de Mendonça (marido e parceiro de idéias de Da. Armanda), do educador Francisco Lourenço Filho, do sanitarista Belisário Pena, assistente de Oswaldo Cruz, do advogado Albino Vaz Teixeira, do líder sindical Custódio Aquino, do artista plástico e professor Francisco Barboza Leite e do professor e pensador Anísio Teixeira,
Foi nas teorias de Anísio Teixeira sobre educação integral do jovem que a professora Armanda Álvaro Alberto buscou inspiração para implantar a sua Escola Regional de Meriti. E a experiência aqui vivida pelo grupo de colaboradores da Escola foi tão importante, que, já em 1927, a instituição ganhava um voto de aplausos da I Conferência Nacional de Educação, realizada no Paraná. Baiano de Caetité, Anísio Teixeira nasceu em 12 de julho de 1900. Desde jovem, dedicara-se ao setor educacional, onde inspirou ou marcou com sua influência todas as reformas do ensino brasileiro desde a década de 20. Suas idéias muito influenciaram não só a educação brasileira, como o sistema educacional da América Latina Completou o curso secundário no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, e o de Direito no Rio de Janeiro; graduando-se em Ciências de Educação pela Universidade de Colúmbia nos EUA. Era o secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal, em 1935, quando por iniciativa sua foi instituída a Universidade do Distrito Federal, historicamente a origem da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Um dos criadores da Universidade de Brasília e seu primeiro reitor, o professor Anísio Teixeira era membro do Conselho Federal de Educação quando apareceu morto, em circunstâncias misteriosas e até hoje não esclarecidas, no poço de um elevador, na Praia de Botafogo, em março de 1971.
Agora, com o depoimento da professora Marta Rossi, a Escola Regional de Meriti passa a fazer parte, oficialmente, da História de Duque de Caxias.
Os professores Edgar Sussekind de Mendonça e Anísio Teixeira (de pé) Martha Rossi, sua filha Silvana Rossi e Armanda Álvaro Alberto (sentadas) em flagrante feito durante uma sessão especial num dos cinemas do Rio de Janeiro

quinta-feira, setembro 15, 2011

TARDE COM HISTÓRIA

GETÚLIO GARANTE: HIDEKEL
NÃO CONFIAVA EM LACERDA

Segundo entrevistado do projeto “Tarde com História”, do Instituto Histórico da Câmara, o empresário Getúlio Gonçalves, presidente da Associação Comercial e Industrial do município há 32 anos, prestou depoimento na segunda-feira (12), quando falou sobre o quebra-quebra de 5 de julho de 1962, que deixou uma dezena de mortos, muitos feridos e arrasou o comércio de gêneros alimentícios de Duque de Caxias.
O depoimento foi prestado diante de uma banca presidida pelo vereador Mazinho, presidente do Legislativo municipal e autor da ideia do “Tarde com História”. A banca era integrada por jornalistas, historiadores e pesquisadores do município. O tema central do seu depoimento foi o quebra-quebra, que Getúlio garantiu que começou com um protesto organizado por dirigentes sindicais no então Estado da Guanabara como forma de hostilizar o então governador Carlos Lacerda, udenista e ferrenho adversário de Jango e do PTB. Como o governador tinha o apoio dos líderes da Marinha e da Aeronáutica, Lacerda colocou a Polícia nas ruas e os organizadores do protesto resolveram partir para a Baixada, que pertencia ao antigo Estado do Rio.

A MORTE DE IMPARATO

Getúlio também falou da tentativa de assassinato do então deputado Tenório
Cavalcante, durante um baile na Associação Comercial no dia 25 de Agosto de 1953, envolvendo o alcagüete conhecido como Bereco, homem de confiança do delegado de polícia Albino Imparato. O incidente ocorreu devido á intenção de Bereco, cumprindo ordens do delegado, de entrar na Associação Comercial para revistar os presentes, em busca de armas. No momento, era realizado um baile em comemoração ao “Dia do Soldado”. No incidente do baile, Getúlio Gonçalves fora um dos participantes que impedira a entrada de “Bereco” e assistiu a troca de tiros que se seguiu, envolvendo também o deputado federal Peixoto Filho, que estava (armado) na festa e resolvera defender Tenório. No na noite do dia 28, Bereco e o delegado foram mortos na porta de um dos hotéis do centro da cidade, local de encontros amorosos. Tenório Cavalcante acabou sendo apontado pela Polícia como mandante do duplo homicídio, tendo como ponto de partida o incidente do dia 25, bem como uma visita de Tenório Cavalcante ao gabinete do delegado poucos dias depois da sua posse, onde Imparato arrancara com um tapa o inseparável chapéu que o “Homem da Capa Preta” sempre usou, sob a justificativa de que, pe
rante uma autoridade (Imparato), Tenório não podia usar cobertura (chapéu).
O delegado Albino Imparato, de uma tradicional família paulista que decidira ser policial no antigo Estado do Rio, fora designado pelo então Secretário de Segurança Pública do antigo Estado do Rio, coronel Barcelos Feio – homem de confiança do governador Ernane do Amaral Peixoto – para comandar a Delegacia de Polícia de Duque de Caxias (um pardieiro no Nº 311 da Avenida Plínio Casado), que ficava a menos de 100 metros da “Fortaleza”, nome pelo qual era conhecida a residência de Tenório Cavalcante.
A principal missão de Imparato era investigar a vida pregressa do “Homem da Capa Preta”. Por esse motivo e tendo por linha de investigação o incidente na porta da Associação Comercial do município, Tenório passou a ser apontado como mandante do duplo homicídio pelo Delegado Wilson Fredericci, encarregado das investigações, enquanto a autoria material era atribuída a um primo do deputado, Pedro Tenório. Por conta dessa investigação, Wilson Fredericci organizou uma operação para invadir a “Fortaleza”, reunindo policiais civis e militares do antigo Estado do Rio. A invasão só não ocorreu por interferência de senadores e deputados, amigos de Tenório, que resolveram acampar na “Fortaleza”, pois Tenório anunciara que iría resistir ao cerco policial e dali só sairia morto. Temendo uma carnificina, o Governo do Estado suspendeu o cerco.

O QUEBRA-QUEBRA EM CAXIAS

Em seu longo depoimento (cerca de duas horas) Getúlio Gonçalves revelou que o quebra-quebra ocorreu no dia 5 de julho de 1962, em decorrência de uma greve geral decretada pelos sindicatos ligados ao Governo João Goulart, como forma de protesto pelo Congresso Nacional haver negado o voto de confiança para que San Thiago Dantas fosse nomeado Primeiro Ministro do jovem parlamentarismo brasileiro, implantado pelo Congresso em 1961 diante da pressão dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, que não aceitavam dar posse ao vice João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961. O Parlamento preferiu o senador Auro Moura Andrade, senador do PSD-SP e um dos mais fortes criadores de gado do País na época.
A greve coincidiu com uma longa crise no abastecimento de gêneros de primeira necessidade, onde o Governo, através da COFAP – Comissão Federal de Abastecimento e Preços – pressionava os varejistas a cumprirem uma irreal tabela de preços para arroz, feijão e açúcar, ao mesmo tempo em que permitia que os atacadistas, concentrados na Rua do Acre, no Centro do Rio, cobrassem um “pedágio” para fornecer esses produtos. Com isso, floresceu um mercado negro, o que acabou servindo de estopim para a revolta da multidão reunida entre a rodoviária da Praça do Pacificador e a estação ferroviária. De repente, alguém gritou: nas “Casas da Banha” (uma das grandes redes de supermercado da época) tem muito feijão e arroz! Bastou arrombar a primeira porta de aço que a multidão se encarregou do saque. Em poucos minutos, grupos partiam para outras mercearias, padarias e quitandas, inclusive nos bairros, que eram arrombadas e saqueadas.
Um grupo de empresários procurou o comando da Imprensa Naval, em Lucas, pedindo ajuda dos Fuzileiros Navais para conter a massa que corria pelas ruas, destruindo tudo. O oficial de dia entrou em contanto com seu superior e recebeu a ordem: nenhum militar interviria na rebelião, pois a situação estava sob controle do governo. Só no final da tarde o Governo se rendeu à realidade e mandou as primeiras tropas do Exército (Vila Militar) para restabelecer a ordem, mas não havia mais mercadinhos ou quitandas na cidade.

A TURMA DO ESCULACHO

Respondendo a uma pergunta da colunista social e advogada Dina Guerra, Getúlio Gonçalves falou com uma ponta de saudade da “Turma do Esculacho”, da qual foi um dos lidere, negando que o grupo promovesse baderna na cidade, como chegou a ser noticiado por um jornal carioca nos anos 60. Getúlio explicou que um grupo de jovens, sem preconceitos, formado por bancários, filhos de pequenos empresários, que também pratica esporte, inclusive tiro ao alvo, costumava se encontrar para a ir a festas das quais não tinham sido convidados. Era uma forma de se divertir inspirada pelo filme “Juventude Transviada”. O grupo era solidário e, se um fosse convidado para uma festa, todos tinha direito de entrar, o que, geralmente, provocava escaramuça entre os jovens e os donos da casa. Segundo Getúlio Gonçalves, os principais integrantes da “Turma” eram Hidekel Freitas Lima e seus irmãos, além dos irmãos Newley e Juarez Lopes Martins.

O PREFEITO HIDELEL FREITAS

Getúlio Gonçalves, casado com uma sobrinha de Tenório Cavalcante, também falou sobre o ex-prefeito e ex-senador Hidekel Freitas, hoje divorciado de Sandra Cavalcante, filha do “Homem da Capa Preta”; E Getúlio revelou como certeza uma suspeita de muita gente: Hidekel não acreditava que seu vice, o ex-deputado José Carlos Lacerda, tivesse condições de governar Duque de Caxias.
Só por essa desconfiança Hidekel Freitas desistira, por duas vezes, de renunciar ao cargo de prefeito, ocupado pela segunda vez, da cidade onde nascera. Na primeira vez, ele assumira a Prefeitura como último prefeito nomeado pelo Governo Federal (João Baptista Figueiredo) por conta da Lei de Segurança Nacional, que listara um grupo de cidades que, com instalações muito sensíveis, podiam ser alvo de ataque dos “comunistas”, no caso, a Refinaria Duque de Caxias. Na época, Hidekel Freitas era deputado federal pela Arena e fora indicado pelo Ministro dos Transportes, Mário Andreazza, para ocupar a Prefeitura, como prefeito nomeado em substituição ao coronel e professor Américo de Barros. Para ser prefeito, Hidekel renunciou ao mandato, mas com o compromisso de Figueiredo e Andreazza de que Duque de Caxias retomaria a sua autonomia administrativa, o que ocorreu em 1985, quando foi eleito prefeito da cidade o professor Juberlan de Oliveira.

AS DUAS RENÚNCIAS

Por duas vezes, Hidekel Freitas ameaçara renunciar ao cargo de prefeito, passando o posto para o seu vice, o ex-deputado José Carlos Lacerda. Na primeira vez, ele ficara empolgado com o convite do Presidente Fernando Collor, a quem apoiara, para disputar em 1990 a eleição para governador. Hidekel estava bem nas pesquisas como prefeito da segunda cidade mais importante do Estado e com chances de vencer, principalmente como candidato do PRN – partido de Collor.
Para isso, ele precisava renunciar ao mandato e se inscrever no novo partido. A troca de partido não era problema para Hidekel, o problema era abrir mão do mandato de prefeito em favor do seu vice. Embora as relações pessoais e políticas fossem excelentes, o prefeito não estava convencido da capacidade, política e administrativa, de Lacerda fazer uma boa administração. Por isso, na undécima hora para renunciar ao cargo e chamou fez uma carta de renúncia, que entregou ao líder do Governo na Câmara, o vereador Vadico, e partiu para o Rio, onde seria recebido com festa na sede do PRN, mas no meio do caminho, desistiu da candidatura, pois teria de enfrentar nada menos que Leonel Brizola.
O ex-prefeito nunca explicou a razão da sua desistência do projeto de ser governador do Estado do Rio, muito menos seu vice, José Carlos Lacerda, que levou para o túmulo essa revelação.
Logo depois, veio a morte do senador Afonso Arinos de Melo Franco, um político mineiro de prestígio internacional de quem Hidekel Freitas era o primeiro suplente, com a segunda suplência cabendo ao ex-prefeito de Campos dos Goytacases, Rockfeller de Lima. Diante do fato, o prefeito caxiense tinha 30 dias para tomar posse do mandato de senador, sob pena de ser convocado o segundo suplente. Hidekel, para ganhar tempo e pensar melhor sobre o que fazer, resolveu consultar a Diretoria do Senado com uma pergunta simples: ele, como prefeito, poderia ir a Brasília, assumir o novo mandato e, já senador, voltar a Duque de Caxias para renunciar ao cargo de prefeito? A resposta foi NÃO!
Segundo a direção do Senado, Hidekel deveria encaminhar uma carta à Câmara Municipal, renunciando ao cargo. A carta seria lida na primeira sessão do Legislativo, onde seria aprovada uma Resolução aceitando a renúncia e convocando o vice-prefeito para assumir o cargo declarado vago pela mesma resolução.
A partir dessa orientação, começou a aflição de Hidekel, temeroso de não conseguir, como mais um Senador, o mesmo prestígio que desfrutava como prefeito da segunda cidade do Estado do Rio, do ponto de vista político e econômico. A incomodá-lo havia também uma dúvida: Lacerda seria um fracasso como administrador, o que afetaria o prestígio político de HF, ou seria um prefeito tão arrojado que chegasse a ofuscar o prestígio de HF?
Getúlio Gonçalves garante que foi uma das últimas pessoas a conversar com o indeciso prefeito, convencendo-o, finalmente, de que deveria voar para Brasília e assumir o novo mandato, pois a Prefeitura ficaria em boas mãos.

sexta-feira, maio 06, 2011

O TEATRO DA BAIXADA ESTÁ DE LUTO

O TEATRO DE CAXIAS PERDEU
UM DE SEUS MAIORES ASTROS

Morreu Edgar de Souza. Como muitos outros artistas que já brilharam nos palcos do Brasil, ele morreu pobre, esquecido, numa modesta casa no Jardim América, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Seu corpo, miúdo e arqueado, não só pela idade, mas também pela implacável doença que o perseguia, baixou a uma modesta sepultura do Cemitério de Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro,
Ao lado de nomes como Armando Melo, Antonio Pacot, Rodolf Arldt, o Rodofinho, Élson Giupponi, Ratinho (da dupla com Jararaca), Roberto Moreira - o inesquecível “Roberto Cavalo - Edgar de Souza, ao longo de décadas, conseguiu levar o Teatro às escolas e às praças, com espetáculos que mostravam a riqueza dos nossos teatrólogos. Sua paixão por Duque de Caxias foi avassaladora, como a de um adolescente e a sua primeira namorada. Nos anos 60 e contratado pelo Governo do antigo Estado do Rio, Edgar de Souza veio fazer algumas apresentações no acanhado auditório do Instituto de Educação Governador Roberto Silveira, dando o pontapé inicial de um projeto da então Secretaria de Educação e Cultura - que deveriam andar juntas como irmãs siamesas. Edgar, ao contrário de outras badaladas estrelas que faziam show em circos e cinemas da cidade, resolveu conhecer melhor Duque de Caxias, uma cidade que acabara de completar a sua maioridade política. Para isso, nada melhor que procurar os veículos de comunicação que deveriam conhecer o "caminho das pedras".
Assim deu-se o encontro do ator com os jornalistas Euricles de Aragão, dono de “O Municipal”, e Ruyter Poubel, da “Folha da Cidade”, que ajudaram na divulgação do espetáculo de estréia do projeto do governo: o clássico monólogo “As Mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch. A amizade entre o ator e os dois jornalistas rendeu muitos frutos, pois Edgar se adotou como caxiense, passou a participar de diversos movimentos no campo cultural, inclusive na fundação da Academia Duquecaxiense de Letras [e da qual nunca fez parte como 'imortal", embora tivesse participaçaç atina nas reuniões na redação de "O Municipal"], movimento que tinha na liderança Euricles de Aragão e o também jornalista e teatrólogo mineiro de Juiz de Fora, Lais Costa Velho.
Foi por conta de
ssas andanças e amizades que Edgar de Souza acabou preso pela polícia (na foto, ao centro, seguido por Antonio Pacot, à sua esquerda), pois seria a estrela de um espetáculo de humor, mas com um título enigmático: "Festival de Defuntos". O texto era de Laís e ele convidou o amigo e parceiro Antonio Pacot para dirigi-lo. Irreverente e publicitário de mão cheia, que trabalhou nas maiores agências de publicidade do Rio e de Nova York, Pacot produziu um cartaz que anunciava “FESTIVAL DE DEFUNTOS” em Caxias. Estávamos em plena ditadura e Laís se negou a submeter seu texto à censura, pois pretendia chamar a atenção pelo inusitado título da peça, do tipo teatro ligeiro. O palco reservado para a estréia do espetáculo, que depois deveria fazer carreira em outros teatros do Rio de Janeiro, foi o Teatro do Sesi de Caxias.
Poucos instantes antes da abertura das cortinas, um grupo de policias, fardados, chegou ao Teatro do Sesi com a ordem de prender autor, ator e diretor. E Edgar, junto com Antonio Pacot, foi parar no xadrez, onde permaneceu por algumas horas como “hóspede” do delegado Amyl Ney Richaid, que se tornou famoso ao prender “Tião Medonho”, um tranqüilo e pacato cidadão que, por conta do assalto ao trem da Central do Brasil, acabou nas manchetes dos jornais, uma história real que rendeu filme e transformou o delegado em celebridade.
Além de continuar atuando nos palcos pelo interior do País, Edgar de Souza assumiu uma nova paixão: as Folias de Reis. A festa folclórica trazida pelos portugueses para o Brasil e que, em plena era da informática, do cinema 3D e da TV digital, atrais milhares de pessoas todos os anos para as suas “Jornadas”, que começam na noite do dia 24 de dezembro e seguem até o dia 6 de janeiro. Com origem entre os árabes, que levaram essa idéia de festejar o Natal em forma de teatro para Portugal, as “Folias de Reis”, tentam refazer, pelas ruas das cidades de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, a caminhada dos tres Reis Magos em direção a Belém, para reverenciarem o Menino Jesus, a prometido Messias anunciado pelos profetas da época.
Para não deixar desaparecer as “Folias de Reis”, tradição que passa de pai para filhos e netos, algumas com mais de 150 anos de peregrinação, Edgar de Souza criou a Federação de Reisados do Rio de Janeiro, para tentar dar suporte às “Folias” e patrocínio para ajudar os ”reiseiros” a comprar e consertar instrumentos e fantasias, pois a “Festa do Arremate”, no dia 20 de Janeiro, data consagrada a São Sebastião, que reunia diversas “Bandeiras” – denominação oficias das Folias – no encerramento de mais uma Jornada, isto é, uma caminhada pregando o Evangelho e saudando a chegada do Ano Novo. A Federação de Reisado do Estado do Rio de Janeiro, com sede em Duque de Caxias, foi criada em 1974 e chegou a catalogar mais de 500 grupos em todo o Estado. E Edgar de Souza, com muito suor, conseguiu mantê-la em funcionamento até recentemente, quando teve de se afastar de suas atividades pelo agravamento da sua doença.
Além da tristeza pela partida de Edgar de Souza, um fato inevitável, temos a deplorar a chamada Política Cultura do País, que desperdiça milhões em projetos de eficiência duvidosa, enquanto deixa na vala comum do esquecimento aqueles que, não tendo nascido em berço esplendido, nem se apropriado dos dinheiros públicos ao longo da vida, chegam à velhice e não podem subir nos palanques, ou chegam ao fim da vida sempre com muita dignidade, quando são abandonados, mesmo que tenham projetos produtivos capazes de mobilizar a opinião publica para discutir os graves problemas do País, inclusive na Cultura.
Infelizmente, esse é o País que iremos deixar para nossos netos!

sexta-feira, outubro 09, 2009

EDUCAÇÃO GANHA PRÊMIO DA UNESCO

VOCÊ SABE QUEM
FOI PAULO FREIRE?

Através do Decreto Legislativo nº 0138, de 31 de agosto de 2004, assinado pelo vereador Laury Villar, então presidente da Câmara de Duque de Caxias, foi instituída a “MEDALHA PRROFESSOR PAULO FREIRE”, a ser concedida anualmente em cerimônia pública no dia 15 de outubro, “Dia do Professor” Na justificativa da concessão dessa comenda, o Decreto especifica que merecerão tal Medalha “os professores que tenham, comprovadamente, desenvolvido projetos, propostas e/ou outros instrumentos para o desenvolvimento da qualidade do processo educacional”
Este ano, no dia 15 de outubro, na cerimônia que o vereador Mazinho irá presidir no Teatro Municipal Raul Cortez, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, uma das professoras homenageadas pela Câmara Municipal, indicada pela vereadora Juliana, será a pedagoga Vera Lúcia Ponciano, que, nos anos 80, era Diretora da Escola Municipal Visconde de Itaboraí, um dos pólos do projeto da Fundação Educar em Duque de Caxias e. Ela também era vice-presidente da Associação dos Moradores do Bar dos Cavaleiros. Foi por conta dessa dupla militância que a professora Vera Lucia Ponciano participou ativamente da implantação de projetos de alfabetização de jovens e adultos na Baixada Fluminense na segunda metade dos anos 80, sob o patrocínio da Fundação Educar, criada pelo Governo Federal para implementar uma política de combate ao analfabetismo, principalmente entre adolescentes e adultos de todo o País.
Em 1988, a Baixada foi duplamente premiada com esse projeto. Primeiro, pelos resultados práticos conquistados, tirando da escuridão do analfabetismo milhares de jovens e adultos que mourejavam diariamente em Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Nilópolis e São João de Meriti. Em segundo, por merecer um Diploma de Honra ao Mérito concedido pela UNESCO, instituição vinculada à ONU – Organização das Nações Unidas - sediada em Paris e dedicada a incentivar e patrocinar projetos que envolvem a educação em todo o Mundo.

Paulo Freire ladeado pelas professoras Vera Lúcia e Solange Amaral numa das suas visitas a Duque de Caxias para acompanhar o desenvolvimento do projeto de alfabetização de jovens e adultos.(Fotos: Arquivo pessoal)

O MÉTODO PAULO FREIRE

O pernambucano Paulo Reglus Neves Freire (nasceu em Recife em 19 de setembro de 1921 e faleceu em São Paulo, no dia 2 de maio de 1997) foi um educador que se destacou por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência. Por isso é considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica.
Para Paulo Freire, “não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério,
com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho,
inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”“.
Ao contrário do método tradicional de memorização de palavras através de cartilhas padronizadas, Paulo Freire partia da pesquisa do linguajar familiar dos alunos para elaborar uma cartilha própria para eles. Assim, o vocabulário básico empregado pelos moradores da Zona Rural de Minas Gerais não era o mesmo utilizado no agreste de Pernambuco, ou pelos catadores de caranguejos de Maceió.
Paulo Freire acreditava que o aluno só seria alfabetizado efetivamente se sentisse que era partícipe importante do projeto. Assim, para os jovens e adultos das grandes cidades, geralmente empregados na Construção Civil, a cartilha partia de termos comuns ao dia a dia, como areia, cimento, pedra, portas, janelas, enquanto para um morador de Xerém e Tinguá, uma região voltada para a agropecuária, o vocabulário básico incluía termos como mandioca, feijão, cana de açúcar, café, vaca, boi, burro, mula.
O método “Paulo Freire”, que acabou sendo adotado em outros países emergentes, desagradou, no entanto, aos grupos conservadores. Primeiro, porque dava ao trabalhador analfabeto uma poderosa ferramenta de reivindicação: o saber ler para entender os seus próprios direitos. Em segundo lugar, a ênfase nos direitos individuais, que incluía o direito de greve, afetava sobremaneira as relações de patrões e empregados, principalmente no campo, onde o dono da terra, mesmo depois do advento da “Lei Áurea”, continua se comportando como senhor de tudo e, principalmente, de todos.
Onde já se viu caboclo largar o corte da cana para reivindicar aumento de salário ou o fim da bóia fria?
E a experiência da Fundação Educar na Baixada Fluminense serviu, ainda, para a elaboração de um livro e até um documentário, dirigido pelo cineasta Silvio Tendler, mostrando o dia a dia dos moradores das favelas e cortiços da região e como eles mudaram o seu jeito de olhar o futuro depois de alfabetizados. O livro “A BAIXADA PARA CIMA”, uma edição bilíngüe, e o documentário foram levados para Paris, onde o projeto de alfabetização demonstrou a sua eficiência e acabou premiado pela Unesco. E entre os professores envolvidos no desenvolvimento e execução do projeto esta um atuante grupo de jovens professores da Baixada, inclusive Solange Amaral, que viria a ser, nos anos 90, Secretária de Educação de Duque de Caxias, e Vera Lúcia Ponciano, que foi sub na mesma pasta, ora homenageada pela Câmara Municipal com a medalha “Paulo Freire”.


As primeiras letras desenhadas no caderno ninguém esquece

AVALIAÇÃO

O livro, feito pelos professores e coordenadores do projeto na Baixada, também reunia depoimentos tanto de alunos, como de pessoas da comunidade ou lideranças políticas da região. Um dos depoimentos mais impactantes da época foi dado por D. Mauro Morelli, então Bispo de Duque de Caxias e São João de Meriti, que afirmava:
“A Baixada Fluminense é um retrato em branco e preto do Brasil. Situa-se próximo à cidade do Rio de Janeiro e faz parte da área metropolitana. Começando pelo povo da Baixada: 60 a 70% da população é de raça negra. Esse povo descende da situação criminosa e vergonhosa que foi a escravatura no Brasil. A maioria ainda vive hoje não numa escravidão jurídica, mas numa escravidão de fato, que é a marginalização, a impossibilidade de participar de verdade da vida social, econômica e política do país.”
Outro depoimento importante recolhido pelos responsáveis pela elaboração do livro foi de Zeelandia Candido de Andrade, coordenadora do Clube de Mães Nossa Senhora da Saúde, em Coelho da Rocha, Distrito de São João de Meriti. Não bastasse a sua militância política, Zeelandia é filha de João Candido, herói da Revolta da Chibata, que liderou, no inicio do Século XX, um movimento insurrecional na Marinha de Guerra contra os castigos corporais infligidos aos marinheiros pelos comandantes das embarcações.
Em seu depoimento, Zeelandia fala sobre as dificuldades enfrentados, até hoje, pelos negros na luta por uma verdadeira igualdade racial, política e social no Brasil.
“Fomos para a rua denunciar a discriminação dos negros, no ano do dito Centenário da Abolição da Escravatura [1988]. Prepararam uma armadilha para nós, mas nós não caímos. Não queremos ocupar o lugar dos brancos. Queremos só que os brancos reconheçam que os negros fizeram também a História deste País. Queremos só estar no espaço que é nosso, ao lado dos brancos. Eu sou pequenininha. Sou apenas a coordenadora da Pastoral do Negro da Diocese de Duque de Caxias. Meu pai foi grande! Lutou pelos pequenos. Por isso, não está na História dos brancos. Mas a gente vai reescrever a História deste país. E esse projeto está ajudando a que se faça justiça!”

Vinte e um anos depois, as vielas da Baixada continuam estreitas e sujas.

MERECIMENTO
A homenagem que a Câmara de Vereadores presta aos professores a cada 15 de outubro é uma forma de lembrar a importância do Magistério na formação do cidadão. Não importa a profissão, a carreira escolhida ou a classe social a que pertença: todo mundo precisa de um professor em sua vida, mesmo ainda no útero materno.
Afinal, quem ensina os primeiros balbucios, os primeiros passos, as primeiras letras?
O prêmio da UNESCO ao trabalho desenvolvido pelos professores da Baixada foi o reconhecimento da Educação como ferramenta de efetiva ascenção social.

domingo, março 29, 2009

Artista da Baixada conclui Cristo
de 1,82m entalhado em madeira


Ele nasceu em Minas Gerais há 56 anos, no mesmo dia (29 de agosto) em que o artista Antônio Francisco Lisboa, conhecido por Aleijadinho, por causa da doença que sofreu e o deformou sem piedade. Muito embora tenha feito cursos de marcenaria e serralheria, ele preferiu estudar a obra de Aleijadinho, o mais famoso artista do período Barroco no País. E, juntando as técnicas que aprendeu no curso de marcenaria com o que leu e pesquisou sobre o artista barroco, ele resolveu se especializar em escultura em madeira. Hoje, ele é conhecido no País e no exterior como o “Aleijadinho da Baixada”. Estamos falando do mineiro Darcilio Ferreira Soares, que, como todo artista autodidata, não fez da profissão um meio para o enriquecimento e mora a muitos anos numa casa modesta do bairro Vila Leopoldina, em Duque de Caxias.
Agora, depois de mais de seis meses de exaustivo trabalho, Darcílio se prepara para entregar um dos mais importantes trabalhos de sua longa carreira: um Cristo pregado na crruz, esculpido em Cedro, com 1,82 metro de altura, Além do trabalho de marcenaria (para desbastar a escultura por dentro, tornando-a mais leve), entalhe (com riqueza de detalhes como as veias dos braços e a coroa de espinhos), Darcílio também realizou o acabamento em pintura automotiva, que garante a qualidade do acabamento e durabilidade da escultura, toda feita em cedro. A obra, segundo o artista, dura pelo menos três séculos. A encomenda foi feita pelo vigário da Igreja de São Benedito, localizada no bairro de Pilares, Zona Norte do Rio de Janeiro, que está passando por um processo de recuperação ao final do qual será realizada uma grande festa para receber a imagem do Cristo, cuja cruz, também em madeira, tem três metros de altura.
Darcílio Ferreira Soares teve uma infância difícil. Ainda criança, perdeu os pais e foi internado em uma creche de Belo Horizonte. Para ocupar o tempo, ele brincava de fazer bonecos com cerâmica. Ele diz que achava tudo fácil, mesmo não tendo ninguém para incentiva-lo ou mesmo ensiná-lo a lidar com o material. Mais tarde, vivendo num internato em Juiz de Fora, onde cursou o antigo ginásio, aproximou-se mais ainda da arte e, aos 18 anos, teve que deixar o colégio e passou a viver com um grupo de amigos que trabalhavam como entalhadores de móveis. Quatro anos depois, desembarcava no Rio de Janeiro, indo residir primeiro em São João de Meriti e depois, na Vila Leopoldina, a poucos quilômetros do centro de Duque de Caxias, onde transformou sua modesta casa em um atelier.
O
trabalho de Darcilio, apesar de nunca ter freqüentado escola de arte, é comparado nos dias de hoje por muitos ao do gênio do barroco mineiro, Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
“Só sei que nasci no mesmo mês que ele, exatamente 226 anos depois”, desconversa o escultor, que tem um currículo de fazer inveja a muitos outros artistas. Nele constam dezenas de imagens sacras em madeira, sob encomenda de antiquários e colecionadores, bem como restauração de várias Igrejas, entre elas a de São José, no Campo de Santana, no Rio; da Ressurreição, em Copacabana, também no Riio; e a de Nossa Senhora da Conceição, em Sabará, Minas Gerais, entre muitas outras. Além de restauração, ainda produz imagens para Igrejas de várias cidades do País e até mesmo do exterior. Possui ainda inúmeras peças no 1º Museu Itinerante da Bíblia, iniciado em 1998 pela escritora e catequista Margarida Maria Lima. Sem falsa modéstia, Darcílio acredita que produziu mais de 50 peças de grande porte em mais de 30 anos de carreira.
Autodidata, Darcilio é considerado um dos mais completos artistas plásticos do país, tendo vários trabalhos nos Estados Unidos e Europa. Entre os colecionadores que mais admiram o artista mineiro está Carlos Alberto Serpa, fundador do Cesgranrio, que possui um presépio com 60 peças e seis imagens de santos. Para Serpa, uma grande exposição do artista certamente traria patrocínio e mais condições para produzir um número maior de obras. A cantora Elba Ramalho também possui obras do artista.
- Darcilio é um artista completo - depõe o também artista plástico Pedro Marcílio Leite. "Além de esculpir as peças, ele faz a pintura e o folheamento em ouro. Não conheço ninguém que faça isso com tanta perfeição. A técnica de envelhecer seus trabalhos é a mesma dos artistas barrocos dos séculos XVII e XVIII", informa Marcílio.
Em Duque de Caxias, Darcílio recebeu alguns prêmios, destacando-se três medalhas de prata no Salão de Arte Sacra, promovido pela Sociedade de Cultura Artística. Ele recebeu ainda uma homenagem de Pedro Marcílio no cordel, "O Santeiro de Caxias", lançado pelo Movimento de Resistência Cultural Barboza Leite.

quinta-feira, março 19, 2009

PACOT E O MONUMENTO AO
“BICHEIRO DESCONHECIDO”

A decisão do prefeito Zito de abrir um acesso direto do viaduto Francisco Correa para o Shopping Center vai melhorar a circulação dos veículos que vão para a Linha Vermelha e o Engenho do Porto, mas acabou com a pracinha feita pelo Lion’s Club nos anos 70. Essa pracinha se tornou um marco em Duque de Caxias quando o publicitário Antonio Pacot, diretor da REVISTA DE CAXIAS, resolveu brincar com o marco em construção e revelou que ali seria inaugurado, brevemente, um “Monumento ao Bicheiro Desconhecido”.
O assunto rendeu notas em diversos jornais do Rio, principalmente pelo fato de Pacot (na foto, atraz do PM) trabalhava para o saudoso Messias Soares, cujo pai, Antonio Soares, gerenciava a loteria “O Sol Nasce Para Todos”, de propriedade do banqueiro do bicho e desportista Melchiades Mariano, o popular “Manduca”, recentemente falecido e que era Diretor-Tesoureiro da CBF. Ocorre que o Sr. Antonio Soares, como pai de Messias Soares, era quem bancava todas as despesas da revista.
O sempre irreverente Antonio Pacot, um publicitário e artista plástico muito respeitado e requisitado tanto no Brasil como em Nova York, onde morou durante alguns anos, morreu de enfarte aos 67 anos, em julho de 2000. Se vivo fosse, ele certamente teria uma charge nova para registrar a demolição do quase famoso “monumento”.
Entre outras campanhas que marcam a história da publicidade no Brasil, Antonio Pacot tinha em seu portfólio a hoje extinta “Imobiliária Sérgio Dourado”, o sorvete “Ébom” (cuja fábrica era na Rua José de Alvarenga, centro de Duque de Caxias), empresa processada pela Kibon e obrigada a mudar seu titulo para “Sem Nome”, a campanha sobre “A Notinha Por Favor”, destinada a melhorar a arrecadação do ICMS para o Governo do então Estado da Guanabara e a multinacional Golden Cross, entre outras.
Antonio Pacot era um caxiense que se tornou um cidadão do mundo e muito respeitado entre anunciantes e agências de publicidade. Um dos fundadores do Teatro Municipal Armando Melo, ele foi preso, juntamente com o ator Edgar de Souza e o teatrólogo Laís Costa Velho, quando tentava encenar uma peça no extinto Teatro do SESI.
O texto era uma sátira à situação vivida pelo município diante do noticiário policial dos jornais sensacionalistas do Rio, como “Luta Democrática”, “A Notícia” e “Ultima Hora”. A peça, que continua inédita até hoje, era “Festival de Defuntos”. Se fosse encenada hoje, seria recebida como uma peça realista, retratando a cidade na nova “Era de Cabral” em pleno Século XXI.
Aproveitando o seu bom relacionamento na mídia, Pacot conseguiu produzir um grande impacto, pois jornais e revistas, e até mesmo as emissoras de rádio, começaram a anunciar que, em breve, haveria um Festival de Defuntos em Caxias! O noticiaria partia da junção do nome da peça com a cidade em que seria apresentada, resultando numa manchete que a todos atraía. Afinal, pela primeira vez na história da imprensa mundial, estava sendo anunciada a realização de um festival de defuntos e numa cidade onde “as galinhas ciscavam p’ra frente”, como era o bordão do radialista Samuel Correia no programa “Radio Patrulha”, na Rádio Tupi, sempre que se referia a um noticiário policial tendo Duque de Caxias como palco.
A imagem da cidade como “terra de ninguém”, que começara na década de 50 em torno do mito Tenório Cavalcante e a sua não menos famosa “Lurdinha”, prosseguiu nos anos 60, com o assalto ao trem pagador da Central do Brasil, ocorrido em 14 de junho de 1960, próximo á estação de Japeri, na Baixada Fluminense.
Para investigar o rumoroso caso, dada a quantia roubada, cerca de 20 milhões de cruzeiros (moeda de época), a Secretaria de Segurança do antigo Estado do Rio designou o experiente Delegado Amyl Ney Richaid, titular da Delegacia de Duque de Caxias. Os criminosos só foram identificados no ano seguinte, graças à atuação do Detetive Perpétuo de Freitas, cedido pelo Governo do Estado da Guanabara para auxiliar nas investigações. Graças a Perpétuo – que era respeitado pelos bandidos, pois tinha por lema respeitar o preso, isto é, ele não “escrachava” quem se entregasse. – a polícia localizou o chefe do bando, apelidado de “Tião Medonho”, em Olaria, de onde foi levado, preso, para a Casa de Saúde Santo Antonio, em Duque de Caxias, aonde veio a falecer uma semana depois em conseqüência de um tiro que levada numa emboscada preparada pelo delegado sob a ponte de Coelho Neto.
Em função do desfecho do caso, o delegado Amyl acabou se elegendo deputado estadual, levando consigo seu principal X-9, Armando Belo de França, que se elegeu vereador em Duque de Caxias.
Ainda na década de 60, Duque de Caxias continuou a freqüentar as páginas policiais devido à ação do “Esquadrão da Morte”, um grupo de policiais que matava os bandidos que eles entendiam como irrecuperáveis. Com muitos tiros, os corpos eram deixados com um cartaz e os dizeres “Esse não mata/rouba/estupra mais”.
E o “Festival de Defuntos” iria abordar os crimes do “Esquadrão da Morte” e, talvez ou principalmente por este motivo, foi proibido pela Polícia e Antonio Paco levado para a 59ª DP/Caxias em companhia do ator Edgar de Souza e do teatrólogo e diretor de teatro Laís Costa Velho.
(Fonte: BLOG DÉCADA DE 50 -
http://decadade50.blogspot.com/2006/09/o-assalto-ao-trem-pagador-da-central.html)